Interrupção de chamada

Olhando as fotos deste New Cerato, é fácil identificar uma acentuada semelhança com os Honda New Civic e City. Seria um caso de plágio descarado? Difícil. O designer que concebeu as linhas do modelo tem um currículo tão vasto e estrelado que seria, no mínimo, leviano afirmar categoricamente que ele copiou a concorrente japonesa.

O alemão Peter Schreyer, chefe de design das marcas do grupo Volkswagen de 1994 a 2005, foi um dos responsáveis pela remodelação da linha Audi e, entre suas criações, estão modelos do calibre de Lamborghini Murciélago e Gallardo, Golf V, Jetta, Eos, New Beetle e Audi TT, entre outros. Além disso, as linhas básicas deste Cerato já apareciam no Kia Koup, um conceito apresentado no início de 2006, quando o Civic iniciava suas vendas. Tudo leva a crer que a semelhança seja mesmo mera coincidência (ou fruto de uma inspiração, digamos assim). Afinal, todo mundo é inocente até que se prove o contrário. Mas será difícil fugir do rótulo. Sorte da Kia que o Cerato não é apenas um “rostinho bonito”. A carroceria agressiva e bem resolvida (até mais que a de Civic e City, em alguns aspectos) é apenas a embalagem de um produto elogiável e surpreendente.

Dimensões e porta-malas são maiores que os do Civic: um novo sedã médio com preço abaixo da média

Esqueça o modelo anterior: trata-se de um carro totalmente novo, construído sobre a mesma plataforma do recém-lançado Soul – de quem herdou as características de boa habitabilidade e o conjunto motriz. Com motor 1.6 e câmbio automático de quatro velocidades, o carro mostra uma agilidade e uma linearidade de condução que fazem os motoristas desavisados duvidarem de que estão a bordo de um modelo 1.6. A potência de 126 cv (dois mais que no Soul), que aparece às 6.300 rpm, é maior até que a de alguns modelos com motor de 1,8 litro.

O moderno 1.6 16V da Kia tem potência maior que o arcaico 1.8 da Fiat/GM, por exemplo. Ao volante, parece até ter motor de maior cilindrada

Torque também não lhe falta. Apesar de o pico máximo aparecer apenas a 4.200 rpm, sua curva é plana, e bem antes o motor já está despejando força suficiente para movimentar o modelo com vivacidade. Um mérito também da transmissão automática com trocas precisas e rápidas (seja no modo automático, seja no sequencial), sem escorregamento do conversor de torque. Andando manso, as trocas ocorrem na casa das 2.000 rpm e o silêncio a bordo é grande; querendo acelerar, basta pisar fundo que o câmbio responde imediatamente com reduções e trocas mais atrasadas. Só faltam borboletas no volante, o que daria um “quê” mais esportivo ao carro.

O interior, aliás, é mais comportado do que a carroceria faz crer. O painel é belo, mas racional. O acabamento é bom e a lista de itens de série, recheada. Por R$ 49.900, o modelo de entrada tem câmbio automático, airbag duplo, ar-condicionado, direção hidráulica, trio elétrico, computador de bordo, som com MP3, entrada para iPod e USB, alarme e rodas aro 15. Já é bem mais do que qualquer concorrente de mesmo preço oferece. Há ainda uma versão intermediária, manual, vendida por R$ 52.900 – que soma rodas aro 16, faróis de neblina, freio traseiro a disco com ABS e EBD, apoio de cabeça ativo, ar-condicionado automático e detalhes internos cromados. À versão top avaliada, de R$ 57.900, acrescentase o câmbio automático. Para quem não liga de trocar as marchas, a versão intermediária é uma excelente opção.

Sua suspensão, com esquema MacPherson na dianteira e eixo de torção na traseira, é um tanto dura – principalmente pela adoção dos pneus 205/55, de perfil mais baixo, nesta versão avaliada – mas não chega a ser um grande incômodo na cidade. Nas curvas, o carro apresenta bom comportamento dinâmico, com pouca inclinação da carroceria e sem desgarrar, o que compensa o desconforto.

Com porte semelhante ao de Honda Civic e preço menor que o do City, esse sedã tem tudo para incomodar a concorrência (só faltou ser flex). Vai morder pelas beiradas e abocanhar consumidores de vários segmentos, de Siena à Corolla. E, para quem está torcendo o nariz para o fato de ele ser coreano, saiba que a Kia evoluiu muito nos últimos anos e hoje tanto ela quanto sua subsidiária Hyundai fazem carros bons e confiáveis. O New Cerato é a prova cabal dessa virada.

De cima para baixo: desenho do painel mais comportado que o da carroceria (no detalhe, as entradas USB e para iPod), instrumentos divididos em três canhões, controle de som no volante, trio elétrico – tudo de série – e o câmbio automático da versão top (R$ 57.900)

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